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quinta-feira, 10 de abril de 2014

PCC planejava explodir ponte e isolar Curitiba na Copa, revela escuta


Uma escuta feita pelo SPF (Sistema Penitenciário Federal) revelou que membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) planejavam ataques a rodovias paranaenses para bloquear o tráfego por terra à cidade, uma das sedes da Copa do Mundo no Brasil. A conversa foi interceptada em setembro de 2013 pelo órgão, ligado ao Ministério da Justiça, e distribuída via relatório para as secretarias estaduais de Justiça e Segurança Pública do Paraná.

Na gravação, dois presos paranaenses que cumpriam pena no presídio federal de Mossoró (RN) articulam um ataque a uma ponte da rodovia Régis Bittencourt (BR-116), que liga Curitiba a São Paulo. Segundo o SPF, o alvo era a ponte sobre a represa do Capivari, a 50 quilômetros da capital paranaense.

Amaral Ferreira Americano, 34, apontado como um dos líderes do PCC no Paraná, sugere que a destruição da estrutura causaria grande prejuízo ao governo e demoraria dois anos para ser reconstruída, impedindo o tráfego para a região Sudeste do Brasil.

Americano, conhecido como "Tio", afirma ter desenvolvido o plano e deixado instruções para que outros criminosos o colocassem em prática. "Deixei tudo escrito lá pros caras desenrolar esse tipo de ideia no momento em que nós saísse (sic) de lá", diz ele a Sergio Aparecido Silva, o "Zé Neguinho", também apontado como membro da facção. "Tio" afirma que o bando tinha oito meses para cometer o ato, ou seja, até junho deste ano, quando ocorre a Copa do Mundo.

Os dois presos foram removidos do Paraná para o Rio Grande do Norte em março de 2013, num mutirão que transferiu mais de 40 condenados ligados a facções criminosas para o presídio federal. Americano foi transferido de volta em fevereiro deste ano e atualmente cumpre pena na Penitenciária de Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. Silva continua em Mossoró.

A Secretaria de Justiça do Paraná informou que o caso já era de conhecimento dos serviços de inteligência que atuam no Estado, mas que a secretaria não vai comentar o assunto.

A SSP ressaltou que "toda e qualquer atividade anormal no sistema prisional do Paraná é monitorada por profissionais altamente qualificados dos setores de inteligência" e que "as polícias do Paraná estão preparadas – com armamentos, profissionais qualificados e treinamentos adequados – para atuar e garantir a segurança de todos durante a realização da Copa do Mundo em Curitiba".

Fontes: Uou - Paraiba
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Reunião Bilderberg 2014: Elite Secreta se Reunirá na Dinamarca


A reunião de 2014 do Grupo Bilderberg – uma organização secreta de agentes do poder mundial – terá lugar na Dinamarca, no final de maio. O anúncio foi feito hoje no site oficial “Bilderberg Meetings“, que afirma simplesmente: “A reunião de 62 Bilderberg terá lugar no final de maio 2014, na Dinamarca“.

Nenhuma cidade ou hotel ainda foi identificado como o local da reunião, embora o grupo sempre realize suas conferências em resorts de luxo próximos a grandes cidades ou em estâncias turísticas remotas exclusivas.

A reunião de 2014 marca o primeiro retorno do grupo Bilderberg para a Escandinávia, já que o grupo reuniu-se na Suécia, em 2001. É a primeira vez que a conferência será realizada na Dinamarca desde 1969.

A organização elitista, que se reúne anualmente na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá, é composta por alguns dos pesos pesados ​​mais poderosos da indústria, bancos, política, realeza, academia e tecnologia.

No ano passado, figurões como Jeff Bezos, Timothy Geithner, Christine Lagarde, Henry Kissinger, a Rainha Beatriz dos Países Baixos, e primeiro-ministro britânico, David Cameron, estavam todos os presentes. Em reuniões anteriores tivemos a participação de figurões da tecnologia como Bill Gates da Microsoft e Eric Schmidt do Google.

Enquanto a grande mídia habitualmente deixa de dar à reunião do grupo Bilderberg a cobertura que merece – caracterizando o grupo como um mero “workshop” – têm sido documentados nos últimos anos inúmeros exemplos de como a organização tem um impacto direto sobre a política global, levando a acusações de que a grupo é fundamentalmente antidemocrático por natureza.

Isto levou a cada vez maiores manifestações anti-Bilderberg nos últimos anos, incluindo o ano passado, em Watford no Reino Unido, onde milhares de pessoas participaram de um evento que foi realizado nos terrenos do Grove Hotel, onde os Bilderbergs estavam tendo sua reunião.

Logo antes da reunião do ano passado, repórteres da Infowars que tinham reservado estadia no Hotel Grove dias antes da chegada dos membros do Bilderberg tiveram suas reservas canceladas devido a preocupações de “segurança” não especificadas.

Em 2010, o ex-Secretário-Geral da OTAN e membro Bilderberg Willy Claes admitiu que os participantes Bilderberg são obrigados a implementar as decisões políticas que são formuladas durante a reunião.

Há inúmeros outros exemplos de como o grupo Bilderberg tem influenciado grandes eventos globais antes destes acontecerem, escolhendo regularmente presidentes e primeiros-ministros com desprezo total para o processo democrático.

No ano passado, o advogado italiano Alfonso Luigi Marra solicitou que o Ministério Público de Roma investigasse atividades criminais da organização clandestina, questionando se a reunião de 2011 do grupo na Suíça levou à seleção de Mario Monti como primeiro-ministro da Itália.

Veja a matéria original em italiano.

Em 2009 o presidente do grupo Bilderberg Étienne Davignon até mesmo se gabava de como a moeda única da europa, o Euro, foi uma criação do Grupo de Bilderberg.


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Vírus transmitido por Aedes aegypti ameaça o Brasil

Aedes aegypti, o transmissor da dengue: febre chikungunya tem sintomas semelhantes aos da dengue - dor de cabeça, febre alta, dor muscular

Pesquisa mostra que insetos têm alta capacidade para transmitir a febre chikungunya, provocada por vírus de mesmo nome

Rio - Velho conhecido dos brasileiros, o Aedes aegypti pode se tornar transmissor de mais uma doença no País, além da dengue e da febre amarela. Pesquisa do Instituto Oswaldo Cruz, publicada no Journal of Virology, mostra que os insetos que circulam por aqui têm alta capacidade para transmitir a febre chikungunya, provocada por vírus de mesmo nome que circula por 40 países e chegou recentemente ao Caribe.

O trabalho, realizado em parceria com o Instituto Pasteur, mostrou que além do A. aegypti, o Aedes albopictus têm potencial elevado de disseminar a febre. A preocupação dos pesquisadores é maior com a proximidade da Copa do Mundo, com o aumento de turistas no País. A febre chikungunya tem sintomas semelhantes aos da dengue - dor de cabeça, febre alta, dor muscular. O que diferencia as doenças são as fortes dores nas articulações, que em alguns casos pode durar meses. O chikungunya também não provoca alterações sanguíneas, como queda de plaquetas, que leva à forma hemorrágica, no caso da dengue.

Os pesquisadores começaram a investigar a transmissão do vírus depois que foram registrados os primeiros casos no Brasil, em São Paulo e no Rio, a partir de 2010. Os infectados haviam visitado a Indonésia, mas a doença não se espalhou pelo País. "Nos perguntamos se os nossos mosquitos, nas Américas, não eram suscetíveis.

Fizemos o estudo com amostras de cepas isoladas na África, e em regiões dos oceanos Índico e Pacífico. Quando estávamos terminando o estudo - e concluímos o potencial de transmissão -, começou o surto nas ilhas francesas do Caribe", afirmou o pesquisador do laboratório de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz, Ricardo Lourenço, que coordenou o estudo. "Estamos muito assustados de o vírus se espalhar pelo Brasil. Porque além de termos os mosquitos transmissores, temos uma população suscetível, que nunca teve contato com esses anticorpos".

Foram analisadas cepas de vírus da África, Nova Caledônia e da região do Oceano Índico. Em laboratório, mosquitos de dez países foram infectados (além do Brasil, Estados Unidos, México, Panamá, Venezuela, Peru, Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina). Em média, os mosquitos estavam aptos a disseminar a doença em sete dias. Os A. albopictus coletados no Rio de Janeiro foram capazes de transmitir a doença em dois dias.

"Isso representa um tempo quase cinco vezes menor do que ocorre com a dengue. Depois de picar uma pessoa infectada, o mosquito tem o vírus na saliva entre 10 e 14 dias depois. Um mosquito precisa viver duas semanas para transmitir a doença, nesse período vários vão morrer. Se o inseto é capaz de passar a doença em dois ou três dias, acelera a capacidade epidêmica", afirmou Lourenço. "O Aedes albopictus recebia atenção secundária, mas agora tem que passar a ter um cuidado maior. Foi o responsável pelos surtos na França e na Itália". 

Fonte: Exame.com 
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Avião da Malásia foi alvo de terrorismo e passageiros estão vivos no Afeganistão, diz jornal russo


MH-370 poderia estar escondido em uma pequena estrada perto de Candahar. Mistério sobre o desaparecimento do MH-370 fortalecem diferentes teorias

O jornal russo Moskovsky Komsomolets divulgou nesta quarta-feira (9) supostas informações sobre o avião da Malaysia Airlines desaparecido há mais de um mês. Segundo uma fonte anônima — que supostamente pertence a um serviço de segurança nacional não identificado —, os passageiros do voo MH-370 estariam vivos em Candahar, no Afeganistão, próximos a uma das fronteiras do Paquistão. A ação seria decorrente de um atentado terrorista.

De acordo com informações do jornal, os passageiros estariam divididos em sete grupos para melhor organização dos sequestradores. Para ele, os especialistas que estavam no voo seriam utilizados nas negociações com o governo americano ou chinês.

O avião estaria com uma das asas quebrada.

O especialista em investigação de acidentes Evgeny Kuzmin, confirmou que um avião daquele modelo poderia pousar em uma estrada de terra convencional, livre de árvores ou montanhas. Ele explicou também que se o pouso for emergencial ou em local inapropriado, pode quebrar parte dele, principalmente a asa.

Entretanto, as informações divulgadas pelo jornal não coincidem com as divulgadas pelo governo malaio.

O jornal também entrevistou Sergey Melnichenko, membro da Fundação russa de Segurança de Voo, que informou que a Tailândia, a Índia e o Paquistão não têm o costume de rastrear aeronaves. Por isso, ele acredita que de fato o MH-370 pode não ter sido rastreado.

Na última segunda-feira (7), o governo da Austrália que comanda as buscas pelo avião desaparecido detectou dois sinais parecidos com os emitidos pelas caixas-pretas. A primeira transmissão teria durado duas horas e vinte minutos e a segunda, apenas 13 minutos.

A informação de que a aeronave não teria caído no mar não foi confirmada pelas autoridades.

Fonte: R7
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A Indústria Farmacêutica paga para obter os resultados que pretende


Em relação às Farmacêuticas, temos de fundamentar uma ideia, excluindo qualquer dúvida: os ensaios financiados pela indústria apresentam maiores probabilidades de produzir um resultado positivo, lisonjeiro, do que os ensaios financiados de uma maneira independente.

Esta é a nossa premissa central, e o leitor irá aperceber-se disso em poucos artigos, porque se trata de um dos fenómenos mais bem documentados no campo cada vez maior da «investigação sobre investigação». Também se tornou muito mais fácil de estudar nos últimos anos porque as regras sobre declaração do financiamento industrial se tomaram um pouco mais claras.

Podemos começar por algum trabalho recente: em 2010, três investigadores de Harvard e de Toronto descobriram todos os ensaios sobre cinco grandes classes de fármacos (antidepressivos, medicamentos contra úlceras, etc.) e mediram duas características fundamentais: foram positivos, e foram financiados pela indústria? [1]

Num total de mais de quinhentos ensaios, 85% dos financiados pela indústria foram positivos, em comparação com apenas 50% dos financiados por governos. Trata-se de uma diferença muito significativa.

Em 2007, houve investigadores que observaram todos os ensaios publicados destinados a explorar os benefícios de uma estatina. [2]

As estatinas são fármacos que reduzem o colesterol, diminuem o risco de ataque cardíaco e são receitadas em enormes quantidades.

Este estudo descobriu um total de 192 ensaios, uns comparando uma estatina com outra e outros comparando uma estatina com um tipo diferente de terapêutica. Depois de os investigadores controlarem outros factores, descobriram que os ensaios financiados pela indústria apresentavam uma probabilidade vinte vezes superior de produzir resultados que favoreciam o fármaco testado. Trata-se, mais uma vez, de uma enorme diferença.

Apresentaremos mais uma. Em 2006, houve investigadores que analisaram todos os ensaios de fármacos psiquiátricos publicados em quatro revistas académicas ao longo de dez anos, tendo apurado um total de 542 resultados de ensaios. 

Os patrocinadores da indústria obtiveram resultados favoráveis para os seus fármacos 78% das vezes, ao passo que os ensaios com financiamento independente só tiveram resultados positivos em 48% dos casos. Se o leitor fosse um fármaco a competir num ensaio com o fármaco do patrocinador, estaria em muito maus lençóis: só conseguiria ganhar nuns míseros 28% dos casos. [3]

São resultados sombrios e assustadores, mas provêm de estudos individuais. Quando se dispõe de muitas investigações num campo, é sempre possível alguém — como nós, por exemplo — seleccionar o que há de melhor e fornecer uma visão parcial. Poderiamos, no essencial, estar a fazer exactamente aquilo de que acusamos a Indústria Farmacêutica e a informá-lo apenas dos estudos que apoiam a nossa pretensão, ocultando dos seus olhos os tranquilizadores.

Para prevenir este risco, os investigadores inventaram a revisão sistemática.

Exploraremos este conceito mais pormenorizadamente noutro artigo, uma vez que ocupa o lugar central na medicina moderna, mas, no essencial, uma revisão sistemática é simples: em vez de um investigador deambular pela literatura de investigação, escolhendo consciente ou inconscientemente, aqui e ali, artigos que apoiam as suas crenças preexistentes, adopta uma abordagem científica, sistemática, ao próprio processo de procura de evidência científica, assegurando-se de que a sua evidência é tão completa e representativa quanto possível de todas as investigações alguma vez efectuadas.

As revisões sistemáticas são muitíssimo onerosas. Por coincidência, foram publicadas em 2003 duas que analisam especificamente a questão que nos interessa. Pegam em todos os estudos alguma vez publicados sobre a existência ou não de associação entre o financiamento da indústria e os resultados que a favorecem.

Cada uma adoptou uma abordagem ligeiramente diferente no que toca ã identificação de artigos de investigação, e ambas descobriram que os ensaios financiados pela indústria apresentavam, em geral, uma probabilidade quatro vezes superior de relatar resultados positivos. [4]

Uma revisão posterior, realizada em 2007, incidiu sobre os novos estudos publicados nos quatro anos que se seguiram a essas duas revisões anteriores: identificou mais vinte artigos, dos quais todos, à excepção de dois, revelavam que os ensaios financiados pela indústria apresentavam maiores probabilidades de relatar resultados lisonjeiros. [5]

Alongamo-nos no estabelecimento desta evidência porque queremos ser absolutamente claros, sem margem para dúvidas, nesta matéria. Os ensaios financiados pela indústria fornecem resultados positivos — não se trata de uma opinião da nossa lavra nem de uma intuição que emergiu de uma análise ocasional, de passagem. É um problema muito bem documentado e que tem sido extensivamente investigado sem que ninguém tenha avançado com uma acção eficaz, como veremos mais adiante.

Há um último estudo sobre o qual queremos falar. Verifica-se que este padrão de os ensaios financiados pela indústria apresentarem probabilidades muito maiores de obterem resultados positivos persiste mesmo quando nos afastamos dos artigos académicos publicados, e examinamos, ao invés, relatórios de ensaios apresentados em conferências académicas, onde os dados aparecem muitas vezes pela primeira vez (de facto, como veremos, por vezes os resultados de ensaios só aparecem numa conferência académica, com muito poucas informações sobre como o estudo foi realizado).


Fries e Krishnan estudaram todos os sumários de investigação, apresentados nas reuniões realizadas em 2011 pelo American College of Rheumatology, que apresentavam qualquer tipo de ensaio e reconheciam patrocínio da indústria, para apurar a proporção dos que apresentavam resultados favoráveis ao fármaco do patrocinador.

Vem aí uma frasezinha, como que o remate de uma piada, e, para a percebermos, temos de falar um pouco sobre o aspecto de um artigo académico. Em geral, a parte referente aos resultados é extensa: fornecem-se números brutos para cada resultado e para cada possível factor causal, mas não sob a forma de algarismos brutos.

Fomecem-se «séries» (ou intervalos), talvez se explorem subgrupos, realizam-se testes estatísticos, e cada pormenor do resultado é descrito sob a forma de tabela e apresentado resumidamente no texto, onde se explicam os resultados mais importantes. Este processo demorado costuma ocupar várias páginas.

Em Fries e Krishnan (2004), este nível de pormenor foi desnecessário. A secção dos resultados é uma frasezinha singela, simples e, gostaria eu de imaginar, bastante passivo-agressiva:

Os resultados de cada ensaio controlado aleatório (45 em 45) favoreceram o fármaco do patrocinador.

Este achado extremo tem um efeito secundário interessantíssimo para as pessoas interessadas em atalhos que poupam tempo. Como todos os ensaios financiados pela indústria tinham um resultado positivo, não precisamos de saber mais nada sobre um ensaio para prever o seu resultado: se foi financiado pela indústria, é certo e sabido que o ensaio descobriu que o fármaco era óptimo.

Como acontece isto? Como conseguem os ensaios financiados pela indústria obter quase sempre um resultado positivo? Tratar-se-á de uma combinação de factores, tanto quanto alguém pode estar certo. Por vezes, a falha dos ensaios reside no delineamento. Podemos comparar o nosso novo fármaco com algo que sabemos que não presta — talvez um fármaco existente numa dose inadequada ou um placebo com uma acção praticamente nula.

Podemos escolher os nossos doentes com todo o cuidado, de modo a aumentar a probabilidade de melhorarem com o nosso tratamento. Podemos espreitar os resultados no meio do ensaio e terminá-lo mais cedo se forem bons (um veneno estatístico, por razões interessantes que iremos discutir). E assim por diante.

Contudo, antes de se chegar a estas fascinantes voltas e reviravoltas metodológicas, a estas cabeçadas e cotoveladas que impedem um ensaio de ser um teste imparcial à eficácia ou não de um medicamento, existe um recurso muito mais simples à disposição.

Por vezes, as empresas da Indústria Farmacêutica realizam muitos ensaios e, quando verificam que os resultados não são lisonjeiros, limitam-se a não os publicar. Não é um problema novo nem se restringe à medicina. Com efeito, esta questão dos resultados negativos que se perdem pelo caminho é transversal a quase todos os domínios da Ciência.

Distorce achados em domínios tão diversos como a imagiologia cerebral e a Economia, troça de todos os nossos esforços para excluir o enviesamento dos nossos estudos e, não obstante tudo o que lhe dirão os reguladores, as empresas da Indústria Farmacêutica e até alguns académicos, é um problema que tem estado por resolver há décadas.

Com efeito, está tão enraizado que mesmo que o resolvêssemos hoje — neste preciso momento, de uma vez por todas, para sempre, sem vícios de forma nem lacunas na nossa legislação —, não seria útil, porque continuaríamos a exercer medicina, a tomar jovialmente decisões sobre qual é a melhor terapêutica, com base em décadas de evidência médica fundamentalmente distorcida, como o leitor acabou de verificar.

No entanto, há uma maneira de progredir.

Notas:

[1] Bourgeois FT, Murthy S, Mandl KD. «Outcome Reporting Among Drug Trials Registered in ClinicalTrials.gov». Annals of Internal Medicine. 2010; 153(3): 158-66.

[2] Bero L, Oostvogel F, Bacchetti P, Lee K. «Factors Associated with Findings of Published Trials of Drug-Drug Comparisons: Why Some Statins Appear More Efficacious than Others». PLoSMed. 5 de Junho de 2007; 4(6): el84.

[3] Kelly RE Jr, Cohen LJ, Semple RJ, Bialer P, Lau A, Bodenheimer A, et al. «Relationship between drug company funding and outcomes of clinical psychiatric research». Psychol Med. Novembro de 2006; 36(11)1647-56.

[4] Bekelman JE, Li Y, Gross CP. «Scope and impact of financial conflicts of interest in biomedical research: a systematic review». JAMA 2003; 289: 454-65.

Lexchin J, Bero LA, Djulbegovic B, Clark O. «Pharmaceutical industry sponsorship and research outcome and quality: systematic review». BMJ2003; 326: 1167-70.

[5] Sergio S. «Pharmaceutical company funding and its consequences: A qualitative systematic review». Contemporary Clinical Trials. Março de 2008; 29(2): 109-13.

Fonte: Livro: «Farmacêuticas da Treta» de Ben Goldacre - Paradigma da Matrix
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Porque é que artigos que revelam dados negativos sobre fármacos não são apresentados?


Nota: as afirmações deste artigo, são da autoria de Ben Goldacre, o médico que escreveu o livro «Farmacêuticas da Treta».

A reboxetina é um fármaco que eu próprio receitei. Como os outros medicamentos não tinham resultado nesse doente em particular, quisemos experimentar qualquer coisa nova. Tinha lido os dados do ensaio antes de escrever a receita e só descobrira testes bem concebidos, imparciais, com resultados esmagadoramente positivos.

A reboxetina era melhor do que o placebo e tão boa como qualquer outro antidepressivo em comparações directas um a um. O seu uso foi aprovado pela MHRA (Medicines and Healthcare products Regulatory Agency), a agência que regula todos os fármacos no Reino Unido.

Todos os anos são receitadas milhões de doses desse fármaco em todo o mundo. A reboxetina era claramente um tratamento seguro e eficaz. O doente e eu discutimos brevemente a evidência e concordámos em que era o tratamento adequado a tentar a seguir. Assinei um pedaço de papel, uma receita, que afirmava que queria que o meu doente tomasse esse fármaco.

No entanto, fomos ambos induzidos em erro. Em Outubro de 2010, um grupo de investigadores conseguiu finalmente juntar todos os ensaios alguma vez realizados sobre a reboxetina. [1]

Num longo processo de investigação — procurando em revistas académicas, mas também solicitando arduamente dados aos fabricantes e recolhendo Documentos provenientes de reguladores —, conseguiram juntar todos os dados, tanto dos ensaios que foram publicados como dos que nunca apareceram em artigos académicos.

O tratamento em conjunto de todos estes dados de ensaios produziu uma imagem chocante. Tinham-se realizado sete ensaios que comparavam a reboxetina com um placebo. Só um, abrangendo 254 doentes, tinha um resultado positivo claro, e foi esse que foi publicado numa revista académica, para ser lido por médicos e investigadores.

Os restantes seis ensaios, abrangendo dez vezes mais doentes, demonstravam todos que a reboxetina não era melhor que um comprimido inerte. Nenhum deles foi publicado. Eu não fazia ideia de que existiam.

Mas as coisas pioraram. Os ensaios que comparavam a reboxetina com outros fármacos produziam uma imagem exactamente idêntica: três pequenos estudos, abrangendo um total de 507 doentes, mostravam que a reboxetina era tão boa como qualquer outro fármaco. Foram todos publicados.

No entanto, dados abrangendo 1657 doentes ficaram por publicar, dados esses que mostravam que os doentes a tomar reboxetina passavam pior do que os que tomavam outra medicação. Como se tudo isto não bastasse, ainda havia os efeitos secundários.

O medicamento fazia boa figura nos ensaios publicados na literatura académica; mas, quando se analisavam os estudos não publicados, verificava-se que os doentes que estavam a tomar reboxetina apresentavam, em comparação com os que tomavam outros medicamentos, maiores probabilidades de sofrer de efeitos secundários, de deixar de tomar o medicamento e de abandonar o ensaio devido a esses efeitos.

Se alguma vez duvidar dos motivos que me levam a ficar furioso com as histórias que conto no livro «Farmacêuticas da Treta» — e juro que, aconteça o que acontecer, me restringirei aos dados e me esforçarei por dar uma imagem imparcial de tudo o que sabemos —, basta-lhe reflectir nesta história.

Fiz tudo o que se esperava que um médico fizesse. Li todos os artigos, apreciei-os criticamente, compreendi-os, discuti-os com o doente e tomámos uma decisão juntos, baseados na evidência. Nos dados publicados, a reboxetina era um medicamento seguro e eficaz. Na realidade, não era melhor do que um placebo, e pior do que isso, fazia mais mal do que bem.

Como médico, após ter pesado toda a evidência, fiz algo que causou dano ao meu doente, simplesmente porque houve dados que não eram lisonjeiros que ficaram por publicar.

Se achar esta situação surpreendente ou escandalosa, estamos apenas no princípio da jornada. Porque ninguém infringiu qualquer lei, a reboxetina ainda é comercializada e o sistema que permitiu que tudo isto acontecesse ainda vigora, para todos os fármacos, em todos os países do mundo.

Os dados negativos estão em falta, para todos os tratamentos, em todos os domínios da Ciência. Os reguladores e os organismos profissionais que deveriam erradicar este tipo de práticas faltaram aos seus compromissos para connosco.

Em poucas páginas, percorreremos a literatura que demonstra tudo isto sem margem para dúvidas, mostrando que o «enviesamento de publicação» — o processo pelo qual os resultados negativos ficam por publicar — é endémico em toda a medicina e em todo o mundo académico, e que os reguladores não fizeram nada contra isto, apesar de décadas de dados que expõem a dimensão do problema.

Mas antes de chegarmos a essa investigação, como preciso que o leitor se dê conta das suas implicações, temos de reflectir sobre a importância dos dados em falta.

A evidência é a única possibilidade que temos de saber se alguma coisa resulta, ou não, em medicina. Progredimos testando coisas, o mais cautelosamente possível, em ensaios comparativos, e reunindo toda a evidência.

Este último passo é crucial: se escondo do leitor metade dos dados, é muito fácil para mim convencê-lo de algo que não é verdade. Se lanço uma moeda cem vezes, por exemplo, mas só o informo das vezes em que saiu caras, posso convencê-lo de que a moeda tem caras nas duas faces.

Mas isso não quer dizer que tenho realmente uma moeda com duas caras: quer dizer que estou a induzi–lo em erro e que o leitor é um tolo por me deixar fazê-lo. É exactamente a situação que toleramos, e sempre tolerámos, em medicina. Os investigadores são livres de realizar todos os ensaios que quiserem e, depois, escolhem os que publicam.

As repercussões desta situação vão muito além dos erros em que os médicos são induzidos sobre os benefícios e danos das intervenções nos doentes, e muito além dos ensaios. A investigação médica não é uma ocupação académica abstracta: é sobre pessoas pelo que, sempre que não publicamos uma peça de investigação, expomos gente real, viva, a sofrimentos desnecessários e evitáveis.

TGN1412

Em Março de 2006, seis voluntários chegaram a um hospital de Londres para participar num ensaio. Era a primeira vez que se ministrava a humanos um novo fármaco chamado TGN1412, e cada um dos voluntários recebia 2000 libras. [2] 

No espaço de uma hora, os seis homens ficaram com dores de cabeça, dores musculares e mal-estar geral. Depois as coisas pioraram: temperaturas altas, agitação, períodos em que se esqueciam de quem eram e de onde estavam. Não tardaram a ter calafrios, rubores, pulsação acelerada, quebra da tensão arterial.

A seguir tudo se precipitou: um entrou em insuficiência respiratória, com os níveis de oxigénio no sangue a diminuírem rapidamente à medida que os pulmões se enchiam de líquido.

Ninguém soube porquê. Outro teve uma brusca quebra de tensão, para apenas 65/40, deixou de respirar em condições e foi levado apressadamente para uma unidade de cuidados intensivos, anestesiado, entubado e ligado a uma máquina de ventilação.

No espaço de um dia, os seis estavam muito mal: líquido nos pulmões, dificuldades respiratórias extremas, rins a funcionarem mal, o sangue a coagular descontroladamente e os glóbulos brancos a desaparecerem.

Os médicos atulharam-nos de tudo o que podiam: esteróides, anti-histamínicos, bloqueadores dos receptores do sistema imunitário. Todos os doentes estavam a ser ventilados nos cuidados intensivos.

Deixaram de produzir urina; foram postos em diálise; o sangue foi substituído, primeiro devagar e depois rapidamente; necessitavam de plasma, de glóbulos vermelhos, de plaquetas. As febres persistiam.

Um contraiu pneumonia. E, depois, o sangue deixou de chegar à periferia. Os dedos das mãos e dos pés ficaram vermelhos, castanhos e depois pretos, começaram a apodrecer e a morrer. Num esforço heróico, escaparam todos, conservando, pelo menos, a vida.

O Departamento de Saúde britânico convocou um grupo de especialistas para tentar compreender o que se passara, tendo surgido duas preocupações. [3]

Em primeiro lugar: podemos impedir a repetição de situações destas? É pura idiotice ministrar, num ensaio pioneiro em humanos, um novo tratamento experimental a todos os participantes ao mesmo tempo se esse tratamento é uma quantidade completamente desconhecida.

Os novos medicamentos devem ser ministrados aos participantes num processo faseado, lentamente, ao longo de um dia. Esta ideia foi acolhida com bastante atenção pelos reguladores e os média.


Não se passou o mesmo no que toca à segunda preocupação: teríamos podido prever este desastre? A TGN1412 é uma molécula que se liga a um receptor chamado CD28 nos glóbulos brancos do sistema imunitário. 

Era um tratamento novo e experimental, o modo como interferia com o sistema imunitário estava mal estudado, e a aplicação de modelos animais era difícil (ao contrário da tensão arterial, por exemplo, porque os sistemas imunitários variam muito consoante as espécies).

Mas, como se descobriu no relatório final, já tinha havido uma experiência com uma intervenção semelhante: só que nunca fora publicada. Um investigador testara a hipótese sem publicar os dados, num estudo que realizou num único sujeito humano dez anos antes, utilizando um anticorpo que se ligava aos receptores CD3, CD2 e CD28.

Os efeitos desse anticorpo assemelhavam-se aos da TGN1412, e o indivíduo sujeito ao teste tinha passado mal.

Mas ninguém teria podido sabê-lo porque esses resultados nunca tinham sido partilhados com a comunidade científica. Permaneceram por publicar, desconhecidos, quando teriam podido ajudar a salvar seis homens de uma provação terrível, destruidora e evitável.

Esse investigador não podia prever os danos específicos para os quais contribuiu, e é difícil responsabilizá-lo individualmente porque funcionava integrado numa cultura académica onde não publicar dados era considerado absolutamente normal. Essa mesma cultura mantém-se nos nossos dias.

O relatório final sobre a TGN1412 concluía que era essencial partilhar os resultados de todos os ensaios pioneiros em humanos: deveriam ser publicados, sem excepção, como rotina. Mas os resultados dos ensaios da fase 1 não eram publicados nessa altura e continuam a não ser publicados hoje.

Em 2009, pela primeira vez, foi publicado um estudo que analisava especificamente quantos desses ensaios pioneiros em humanos são publicados e quantos permanecem escondidos. [4]

Pegaram em todos os ensaios desse tipo aprovados por uma comissão de ética ao longo de um ano. Ao cabo de quatro anos, nove em cada dez permaneciam por publicar; ao cabo de oito anos, quatro em cada cinco ainda não tinham sido publicados.

Em medicina, como veremos vezes sem conta, a investigação não é abstracta: relaciona-se directamente com a vida, a morte, o sofrimento e a dor. Devido a cada um desses estudos não publicados, estamos potencialmente expostos, desnecessariamente, a outra TGN1412.

Nem uma notícia enorme, divulgada internacionalmente, com imagens horríveis de jovens exibindo pés e mãos enegrecidos em camas de hospital, foi suficiente para desencadear qualquer acção, pois a questão dos dados em falta é demasiado complicada para caber numa frase.

Quando não partilhamos resultados de investigações básicas, como o pequeno estudo pioneiro em humanos, expomos pessoas a riscos desnecessários no futuro. Terá este sido um caso extremo? O problema limitar-se-á a novos medicamentos experimentais em pequenos grupos de participantes em fases iniciais de ensaio? Não.

Na década de 1980, os médicos começaram a receitar antiarrítmicos a todos os doentes que tinham tido um ataque cardíaco.

Esta prática fazia imenso sentido no papel: sabíamos que os antiarrítmicos ajudavam a prevenir ritmos cardíacos anormais; também sabíamos que as pessoas que tinham tido um ataque cardíaco apresentavam maiores probabilidades de ter ritmos cardíacos anormais; também sabíamos que era frequente estes ritmos não serem detectados, diagnosticados e tratados.

Receitar antiarrítmicos a toda a gente que tivesse tido um ataque cardíaco era uma medida simples, sensata e preventiva.

Infelizmente, revelou-se que estávamos errados. Esta prática prescritiva, com a melhor das intenções, baseada nos melhores princípios, matou realmente pessoas.

E, como os ataques cardíacos são muito comuns, matou um grande número de pessoas: bem mais de 100.000 morreram desnecessariamente antes de percebermos que o equilíbrio fino entre benefício e risco era completamente diferente para os doentes que não tinham um ritmo cardíaco comprovadamente anormal.

Teria alguém podido prever isto? Infelizmente, sim. Um ensaio realizado em 1980 testou um novo antiarrítmico, a lorcainida, num pequeno número de homens, menos de uma centena, que tinham tido um ataque cardíaco, para ver se era de alguma utilidade.

Nove em quarenta e oito homens que tomaram lorcainida morreram em comparação com um dos quarenta e sete que tomaram placebo. O medicamento estava nas primeiras fases do seu ciclo de desenvolvimento e, pouco depois deste estudo, foi abandonado por razões comerciais.

Como não estava no mercado, ninguém pensou sequer em publicar o ensaio. Os investigadores partiram do princípio de que se tratava de uma idiossincrasia da sua molécula e não pensaram mais nisso.

Se tivessem publicado o estudo, teríamos sido muito mais cuidadosos no que toca a experimentar outro antiarrítmico em pessoas com ataques cardíacos, e o fenomenal número de óbitos (mais de 100.000 pessoas que morreram prematuramente) teria podido ser travado mais cedo.

Mais de uma década depois, os investigadores publicaram finalmente os resultados, com um mea culpa, reconhecendo os danos que tinham causado por não os terem partilhado mais cedo:

“Quando realizámos o nosso estudo em 1980, pensámos que o aumento da taxa de mortalidade verificada no grupo que estava a tomar lorcainida se devia ao acaso.

O desenvolvimento da lorcainida foi abandonado por razões comerciais, pelo que este estudo nunca foi publicado; esta situação constitui presentemente um bom exemplo de «enviesamento de publicação». Os resultados aqui descritos teriam podido fornecer um aviso prévio de problemas futuros.” [5]

Como veremos noutros artigos, este problema dos dados não publicados está generalizado na medicina e, na verdade, em todo o mundo académico, embora a escala do problema, e os danos que causa, tenham sido documentados sem deixar margem para dúvidas.

Veremos histórias sobre investigação básica do cancro, Tamiflu, medicamentos contra o colesterol, contra a obesidade, antidepressivos e muitos mais, com provas que vão desde os primórdios da medicina até aos dias de hoje, e dados que continuam a ser ocultados, neste preciso momento, sobre fármacos amplamente utilizados que muitos dos leitores terão tomado esta manhã.

Veremos também como os reguladores e os organismos académicos se esquivaram repetidas vezes a abordar o problema.

Como os investigadores usufruem da liberdade de enterrar os resultados que quiserem, os doentes estão expostos a danos a uma escala aterradora, em toda a medicina, desde a investigação à prática clínica. Os médicos podem não ter nenhuma ideia dos verdadeiros efeitos dos tratamentos que prescrevem.

Será que este medicamento resulta melhor ou será que estou apenas privado de metade dos dados? Ninguém sabe. Será que este medicamento dispendioso vale o dinheiro que custa ou terão os dados sido manipulados? Ninguém sabe. Este medicamento matará o doente? Há provas de que é perigoso? Ninguém sabe.

É estranho que esta situação surja na medicina, uma disciplina onde se parte do princípio de que tudo se baseia na evidência e onde a prática clínica do dia-a-dia se entrelaça com a ansiedade médico-legal.

Num dos domínios mais regulados da conduta humana, tirámos os olhos da bola e permitimos que a evidência que orienta a prática fosse poluída e distorcida. Parece inimaginável. Veremos até que ponto este problema é profundo.

Notas:

[1] Eyding D, Leigemann M, Grouven U, Harter M, Kromp M, Kaiser T, et al. «Reboxetine for acute treatment of major depression: systematic review and meta-analysis of published and unpublished placebo and selective serotonin reuptake inhibitor controlled trials». BMJ. 12 de Outubro de 2010; 341: c4737-c4737.

[2] Suntharalingam G, Perry MR, Ward S, Brett SJ, Castello-Cortes A, Bruner MD, et al. «Cytokine storm in a phase 1 trial of the anti-CD28 monoclonal antibody TGN1412». N. Engl. J. Med. 7 de Setembro de 2006; 355(10): 1018-28.

[3] Expert Group on Phase One Clinical Trials: Final report [Internet], 2006 [citado em 5 de Abril de 2012]. Disponível em:

http://www.dh.gov.uk /en/Publicationsandstatistics/Publications/PublicationsPolicyandGuidance/D H_063117

[4] Decullier E, Chan A-W, Chapuis F. «Inadequate Dissemination of Phase I Trials: A Retrospective Cohort Study». PLoSMed. 17 de Fevereiro de 2009; 6(2): el000034.

[5] Cowley AJ, Skene A, Stainer K, Hampton JR. «The effect of lorcai-nide on arrhytmias and survival in patients with acute myocardial infarction: an example of publication bias». International Journal of Cardiology. 1993; 40(2): 161-6. Iain Chalmers foi o primeiro a apresentar a TGN1412 e os antiarrítmicos como exemplos dos danos causados quando os primeiros ensaios individuais não são publicados. São os melhores exemplos deste problema, mas não devemos pensar que são invulgares: os dados quantitativos mostram que são apenas dois entre muitíssimos outros casos do mesmo tipo.

Fontes: Livro: «Farmacêuticas da Treta» de Ben Goldacre - Paradigma da Matrix
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Qual a quantidade de artigos com resultados negativos não publicados por parte da Indústria Farmacêutica?


Se quer provar que há ensaios que não foram publicados, enfrenta um interessante problema: precisa de provar a existência de estudos aos quais não tem acesso. Para contornar esta situação, desenvolveu-se uma abordagem simples: identifica-se um grupo de ensaios que se sabe que foram realizados e completados, e tenta-se verificar se foram publicados.

Descobrir uma lista de ensaios completados é a parte espinhosa deste trabalho e, para a realizar, tem sido necessário utilizar várias estratégias: desenterrar as listas de ensaios que foram aprovadas por comissões de ética (os «conselhos institucionais de avaliação», Institutional Review Boards, dos Estados Unidos), por exemplo, ou andar à caça dos ensaios discutidos por investigadores em conferências.

Em 2008, um grupo de investigadores decidiu verificar a publicação de todos os ensaios que tinham sido referenciados à Food and Drug Administration (FDA) americana sobre todos os antidepressivos introduzidos no mercado entre 1987 e 2004.

Não era pêra doce. Os arquivos da FDA contêm uma razoável quantidade de informação sobre todos os ensaios submetidos ao regulador com o fim de obter uma autorização de introdução no mercado para um novo fármaco.

Mas não são, de forma alguma, todos os ensaios porque os realizados depois da comercialização do fármaco não constarão desses arquivos; acresce que as informações fornecidas pela FDA são difíceis de procurar e muitas vezes insuficientes.
 
No entanto, trata-se de um subconjunto importante de ensaios, mais do que suficientes para começar a explorar a frequência com que os ensaios estão em falta e porquê. Constitui também uma fatia representativa dos ensaios realizados pela totalidade das maiores empresas da Indústria Farmacêutica.

Os investigadores descobriram um total de setenta e quatro estudos, abrangendo 12.500 doentes. Trinta e oito desses estudos tinham resultados positivos, tendo descoberto que o novo fármaco resultava; trinta e seis eram negativos. Por conseguinte, os resultados apontavam, na realidade, para uma divisão equitativa entre o êxito e o fracasso dos fármacos.

A seguir, os investigadores começaram a procurar esses ensaios na literatura académica publicada, que constitui o material à disposição de médicos e doentes. Esta iniciativa forneceu um quadro muito diferente. Trinta e sete dos ensaios positivos (todos menos um) haviam sido publicados na íntegra, frequentemente com muito alarde. Mas os ensaios com resultados negativos tinham tido um destino muito diferente: só três foram publicados.

Vinte e dois perderam-se simplesmente, não tendo aparecido em parte alguma excepto nos arquivos poeirentos, desorganizados e pouco volumosos da FDA.

Os restantes onze com resultados negativos nos sumários da FDA apareciam de facto na literatura académica, mas com uma nova redacção, como se o fármaco fosse um êxito. Concordo consigo se achar isto absurdo: veremos noutros artigos sobre como é possível refazer e polir os resultados de um estudo a fim de distorcer e exagerar os seus achados.

Foi um trabalho notável, abrangendo doze fármacos de todos os mais importantes fabricantes, sem que se destacasse especialmente nenhum vilão. O trabalho expôs com toda a clareza um sistema corrompido: na realidade, temos trinta e oito ensaios positivos e trinta e sete negativos; na literatura académica, temos quarenta e oito ensaios positivos e três ensaios negativos. Páre um momento para folhear mentalmente estes resultados: «trinta e oito ensaios positivos, trinta e sete negativos» ou «quarenta e oito ensaios positivos, e só três negativos».

Se estivéssemos a falar num único estudo, de um único grupo de investigadores, que decidiu apagar metade dos resultados porque não lhe forneciam a imagem global que pretendia, poderíamos qualificar esse acto com toda a correcção como «má conduta em investigação».

Porém, de certa forma, quando ocorre exactamente o mesmo fenómeno, mas com o desaparecimento de estudos inteiros, por acção de centenas e milhares de indivíduos, espalhados pelo mundo, tanto no sector público como no privado, aceitamo-lo como uma parte normal da vida. [12] Passa ao lado, sob os olhares observadores dos reguladores e organismos profissionais que nada fazem, por rotina, não obstante o inegável impacto que tem nos doentes.

Mais estranho ainda: sabemos que o problema dos estudos negativos que desaparecem remonta praticamente ao momento em que se começou a fazer Ciência ”séria”.

Esta situação foi documentada formalmente pela primeira vez por um psicólogo chamado Theodore Sterling em 1959. [2]

Estudou todos os artigos publicados nas quatro maiores revistas de Psicologia da época, e descobriu que 286 em 294 divulgavam um resultado estatisticamente significativo. Como explicou, isto era rotundamente suspeito: não podia ser uma representação imparcial de todos os estudos realizados porque, se acreditássemos nisso, teríamos de acreditar que quase todas as teorias testadas por psicólogos numa experiência se tinham revelado correctas.

Se os psicólogos fossem realmente tão bons a prever resultados, então não fazia nenhum sentido darem-se ao trabalho de realizar quaisquer experiências. Em 1995, no fim da carreira e na segunda metade da sua vida, o mesmo investigador voltou à mesma questão e descobriu que quase nada tinha mudado. [3]

Sterling foi o primeiro a formular estas ideias num contexto académico formal, mas a verdade básica tinha sido reconhecida há séculos. Francis Bacon explicara em 1620 que é frequente induzirmo-nos a nós próprios em erro, limitando-nos a recordar as vezes em que alguma coisa resultou e esquecendo-nos das vezes em que não resultou. [4]

Em 1786, Fowler listou os casos que observara de tratamento com arsénico, e sublinhou que teria podido dissimular os fracassos, como outros poderiam ter sido tentados a fazer, mas que os havia incluído. [5] Proceder de outra forma, explicou, teria sido enganador.

Contudo, foi só há três décadas que as pessoas começaram a perceber que os ensaios em falta constituíam um problema grave em medicina. Em 1980, Elina Hemminki descobriu que quase metade dos ensaios realizados em meados da década de 1970 na Finlândia e na Suécia não tinha sido publicada. [6]

A seguir, em 1986, um investigador americano chamado Robert Simes decidiu investigar os ensaios sobre um novo tratamento para o carcinoma do ovário. Foi um estudo importante porque tratava de uma questão de vida ou de morte.

A quimioterapia combinada para este tipo de cancro tem efeitos secundários muito pesados e, cientes disto, muitos investigadores tinham esperança de melhorar a situação começando por ministrar um «agente alquilado» e passando, depois, à quimioterapia. Simes estudou todos os ensaios sobre esta questão publicados na literatura académica, lida por médicos e académicos.

Com base nessas informações, parecia boa ideia ministrar primeiro um único fármaco: as mulheres com carcinoma do ovário em estado avançado (que não é um bom diagnóstico) que tomavam apenas o agente alquilado apresentavam probabilidades significativamente maiores de sobreviver mais tempo.

Então Simes teve uma ideia inteligente. Sabia que, por vezes, os ensaios não eram publicados, e tinha ouvido dizer que era mais provável isto acontecer no caso dos artigos com resultados menos «excitantes».

No entanto, provar que isto ocorria era uma tarefa difícil: era necessário descobrir uma amostra imparcial e representativa de todos os ensaios realizados e, depois, comparar os seus resultados com o grupo mais pequeno de ensaios que tinham sido publicados, para apurar se existiam diferenças embaraçosas.

Como não havia uma maneira fácil de conseguir estas informações do regulador dos medicamentos, Simes recorreu ao International Cancer Research Data Bank.

Este banco de dados continha um registo de ensaios interessantes que estavam em curso nos Estados Unidos, incluindo a maior parte dos que eram financiados pelo governo, e muitos outros de todo o mundo. Não era de modo algum uma lista completa, mas possuía uma característica crucial: os ensaios eram registados antes de os resultados surgirem, pelo que qualquer lista proveniente desta fonte seria, se não completa, pelo menos uma amostra representativa de toda a investigação realizada, e não seria enviesada pelo facto de os resultados serem ou não positivos.

Quando Simes comparou os resultados dos ensaios publicados com os ensaios pré-registados, os resultados foram preocupantes. Olhando apenas para a literatura académica (os estudos que os investigadores e editores escolhem publicar), os agentes alquilados só por si pareciam uma grande ideia, reduzindo significativamente a taxa de mortalidade causada pelo carcinoma do ovário em estado avançado.

Mas, quando se olhava apenas para os ensaios pré-registados (a amostra não enviesada e imparcial de todos os ensaios realizados), o novo tratamento não era melhor do que a quimioterapia tradicional.

Simes reconheceu imediatamente — e espero que o leitor também — que a questão de saber se uma forma de tratamento para o cancro é melhor do que outra era peixe miúdo em comparação com a bomba que estava prestes a detonar na literatura médica.

Tudo o que pensávamos saber sobre se os tratamentos resultavam ou não estava provavelmente distorcido, numa escala que talvez fosse difícil de medir mas que decerto teria um enorme impacto nos cuidados a prestar aos doentes. Só estávamos a ver os resultados positivos e a perder os negativos. Era evidente o que devíamos fazer quanto a isto: encetar um registo de todos os ensaios clínicos, exigir às pessoas que registassem o seu estudo antes de o iniciarem e insistir com elas para que publicassem os resultados no fim.


Estava-se em 1986. Temo-nos portado muito mal desde então, uma geração depois.

Uma das abordagens da investigação é recolher todos os ensaios registados num regulador de medicamentos, desde os primeiros realizados para conseguir autorização de comercialização de um novo fármaco, e depois verificar se todos apareceram na literatura académica.

Foi o método utilizado pelo artigo atrás mencionado, em que os investigadores reuniram todos os artigos sobre doze antidepressivos e descobriram que uma divisão 50/50 de resultados positivos e negativos se transformara em quarenta e oito artigos positivos e apenas três negativos. Este método tem sido amplamente utilizado em vários domínios diferentes da medicina:

Lee e colegas, por exemplo, analisaram todos os 909 ensaios submetidos bem como os pedidos de autorização de todos os noventa novos fármacos introduzidos no mercado entre 2001 e 2002: descobriram que foram publicados 66% dos ensaios com resultados significativos, em comparação com apenas 36% dos restantes. [7]

Melander, em 2003, analisou todos os quarenta e dois ensaios sobre cinco antidepressivos submetidos ao regulador sueco para efeitos de autorização de introdução no mercado: todos os vinte e um estudos com resultados significativos foram publicados; só foram publicados 81% dos estudos que não registaram qualquer benefício. [8]

Rising et al., em 2008, descobriram mais daquelas reavaliações distorcidas que dissecaremos mais adiante: analisaram todos os ensaios de fármacos aprovados no espaço de dois anos. Nos sumários de resultados da FDA, quando se conseguiam encontrar, havia 164 ensaios.

Os que tinham resultados favoráveis apresentavam uma probabilidade quatro vezes maior de serem publicados em artigos académicos do que os que tinham resultados negativos. Além disso, quatro dos ensaios com resultados negativos mudaram, quando surgiram na literatura académica, de modo a favorecer o fármaco. [9]

Se preferir, o leitor pode analisar as apresentações em conferências: é em conferências que é apresentada uma imensa quantidade de investigações, mas as nossas melhores estimativas apontam para que apenas metade delas seja publicada na literatura académica. [10]

Os estudos apresentados apenas em conferências são quase impossíveis de encontrar, ou de citar, e são especialmente difíceis de avaliar, devido à escassa informação disponível sobre os métodos específicos utilizados na investigação (é frequente ocuparem apenas um único parágrafo).

E como verá em breve, nem todos os ensaios são testes imparciais de um tratamento. Como em alguns o enviesamento pode residir no delineamento ou concepção, estes pormenores têm importância.


A Revisão Sistemática mais recente de estudos sobre o que acontece aos artigos de conferência realizou-se em 2010 e descobriu trinta estudos autónomos que analisam se as apresentações negativas em conferências — em campos tão diversos como a anestesia, a fibrose quística, a oncologia e a traumatologia — desaparecem antes de se transformarem em artigos académicos de pleno direito. [11]

Os resultados pouco lisonjeiros apresentam uma probabilidade esmagadoramente maior de eles desaparecerem. Se tivermos muita sorte, conseguimos localizar uma lista de ensaios cuja existência foi publicamente registada antes de se iniciarem, talvez num registo criado para explorar essa mesma questão.

Até há bem pouco tempo, teríamos muita sorte em encontrar, no domínio público, uma lista deste tipo oriunda da Indústria Farmacêutica.

No que toca à investigação publicamente financiada, a situação é um pouco diferente, e é aqui que começamos a aprender uma nova lição: embora a ampla maioria de ensaios seja realizada pela indústria, tendo como resultado que é esta última que impõe o andamento à comunidade, este fenómeno não se limita ao sector comercial.

Em 1997, já existiam quatro estudos de Revisão Sistemática sobre esta abordagem. Descobriram que os estudos com resultados significativos apresentavam uma probabilidade duas vezes e meia superior de ser publicados do que os que tinham resultados negativos. [12]

Um artigo de 1998 analisou todos os ensaios de dois grupos de investigadores patrocinados pelos National Institutes of Health americanos nos dez anos anteriores, e descobriu, mais uma vez, que os estudos com resultados significativos apresentavam maiores probabilidades de ser publicados. [13]

Outro estudo analisou os ensaios de medicamentos notificados à Agência Nacional Finlandesa, e descobriu que 47% dos resultados positivos tinham sido publicados, em comparação com apenas 11 % dos resultados negativos. [14]

Outro analisou todos os ensaios que passaram pelo departamento de farmácia de um hospital oftalmológico desde 1963: 93% dos resultados significativos foram publicados, em comparação com apenas 70% dos resultados negativos. [15]

O que esta saraivada de dados pretende sublinhar é que não se trata de uma área mal coberta pela investigação, e que há muito tempo que dispomos de provas, que não são contraditórias nem ambíguas.

Dois estudos franceses realizados em 2005 e 2006 adoptaram uma nova abordagem: contactaram comissões de ética, obtiveram listas de todos os estudos por elas aprovados e descobriram junto dos investigadores se os ensaios tinham produzido resultados positivos e negativos, antes de se porem finalmente a procurar artigos académicos publicados. [16]

O primeiro estudo revelou que os resultados significativos apresentavam uma probabilidade duas vezes maior de serem publicados; esta probabilidade subia para quatro vezes mais no segundo estudo.

Na Grã-Bretanha, dois investigadores enviaram um questionário a todos os investigadores principais de 101 projectos financiados pela Investigação e Desenvolvimento do Serviço Nacional de Saúde britânico: apesar de não se tratar de investigação da indústria, vale a pena referir este estudo. O resultado foi invulgar: não havia uma diferença estatisticamente significativa entre as taxas de publicação dos artigos positivos e negativos. [17]

Porém, não basta enumerar estudos. Tendo em conta sistematicamente todas as provas de que dispomos até ao momento, que panorâmica obtemos?


Não é ideal reunir todos os estudos deste tipo numa única folha de cálculo gigantesca de modo a obter um número que resuma o enviesamento de publicação, porque os estudos são todos muito diferentes, em campos diferentes e com métodos diferentes.

É uma preocupação de muitas meta-análises (embora não deva ser exagerada: se existem muitos ensaios que comparam um tratamento com um placebo, por exemplo, e se todos utilizam a mesma maneira de avaliar resultados, então pode ser adequado reuni-los a todos).

No entanto, é razoável juntar alguns destes estudos em grupos. A Revisão Sistemática mais actual sobre enviesamento de publicação, de 2010, de que extraímos os exemplos acima referidos, junta provas de diversos campos. [18]

Doze estudos comparáveis debruçam-se sobre apresentações em conferências, e, no seu conjunto, revelam que um estudo com um resultado significativo apresenta uma probabilidade 1,62 vezes superior de ser publicado.

No caso dos quatro estudos que recorreram a listas de ensaios antes de estes se terem iniciado, a probabilidade de os resultados significativos serem publicados era, no global, 2,4 vezes superior. São estas as nossas melhores estimativas da escala do problema. São actuais e são esmagadoras.

Toda esta questão dos dados em falta não é apenas um assunto académico abstracto: no mundo real da medicina, a evidência publicada é utilizada para a tomada de decisões terapêuticas. Como este problema está no cerne de tudo o que os médicos fazem, vale a pena reflectir com algum pormenor no impacto que tem na prática médica.

Em primeiro lugar, como vimos no caso da reboxetina, médicos e doentes são induzidos em erro quanto aos efeitos dos medicamentos que usam, e podem acabar por tomar decisões que causam um sofrimento evitável, ou mesmo a morte.

Também podemos optar por tratamentos desnecessariamente dispendiosos, tendo sido levados a pensar que eram mais eficazes do que os mais velhos e mais baratos. Trata–se de um desperdício de dinheiro, que acaba por privar os doentes de outros tratamentos, porque o financiamento dos cuidados de Saúde nunca é infinito.

Também vale a pena esclarecer que estes dados são ocultados de toda a gente no campo da medicina, de alto a baixo. Por exemplo, do NICE (National Institute for Health and Clinicai Excellence), criado pelo governo britânico para elaborar sumários cuidadosos, não enviesados, de toda a evidência sobre novos tratamentos.

Este instituto é incapaz de identificar ou de aceder a todos os dados sobre a eficácia de um medicamento que tenham sido retidos por investigadores e empresas: não dispõe de mais direitos legais sobre os dados do que o leitor ou eu, embora esteja a tomar decisões sobre eficácia e custo-eficácia, em nome do Serviço Nacional de Saúde britânico, para milhões de pessoas.

Com efeito, como veremos, a MHRA e a EMA (Agência Europeia de Medicamentos), os reguladores que decidem que fármacos são introduzidos no mercado no Reino Unido, têm muitas vezes acesso a estas informações, mas não as partilham com o público, os médicos ou o NICE. Trata-se de uma situação extraordinária e perversa.

Por conseguinte, enquanto os médicos são mantidos na ignorância, os doentes são expostos a tratamentos inferiores, a tratamentos ineficazes, a tratamentos desnecessários e a tratamentos desnecessariamente dispendiosos que não são melhores do que os mais baratos; os governos pagam tratamentos desnecessariamente dispendiosos e eliminam o custo dos prejuízos criados por tratamentos inadequados e nocivos; e os participantes individuais em ensaios, como os do estudo da TGN1412, são expostos a provações terríveis, que põem a vida em risco e que deixam marcas para sempre, mais uma vez desnecessariamente.

Ao mesmo tempo, o projecto de investigação em medicina, no seu todo, sofre um atraso, porque os resultados negativos vitais são escondidos de quem os podia utilizar. Isto prejudica toda a gente, mas é especialmente chocante no mundo das «doenças órfãs», desses problemas médicos que afectam apenas um número pequeno de doentes, porque esses recantos da medicina já sofrem de falta de recursos e são negligenciados pelos departamentos de investigação da maior parte das empresas da Indústria Farmacêutica, pois as oportunidades de lucro são mais pequenas.

As pessoas que trabalham em doenças órfãs investigam muitas vezes fármacos já existentes que foram experimentados e fracassaram noutras situações, mas que possuem, teoricamente, potencialidades no caso da doença órfã. Se estão em falta dados de ensaios anteriores destes fármacos noutras doenças, o trabalho de os investigar no caso da doença órfã é não só mais difícil como mais perigoso: talvez os medicamentos já tivessem demonstrado benefícios ou efeitos que ajudariam a acelerar a investigação; talvez já tivessem demonstrado que são activamente prejudiciais quando utilizados noutras doenças, havendo importantes sinais relativos à segurança que ajudariam a proteger futuros participantes em investigações. Ninguém o pode dizer.

Por último — e talvez este aspecto seja o mais escandaloso —, quando permitimos a não publicação dos dados negativos, traímos os doentes que participaram nesses estudos: as pessoas que lhes entregaram os corpos, e por vezes a vida, na crença implícita de estarem a participar na criação de novos conhecimentos passíveis de beneficiar futuramente outras pessoas na mesma situação do que elas.

Com efeito, a sua crença não é implícita: é amiúde exactamente aquilo que nós, investigadores, lhes dizemos, e é uma mentira, porque os dados podem ser ocultados, e nós sabemo-lo.

Por culpa de quem?

Notas:

[1] Eis o clássico artigo que defende este ponto: Chalmers Iain. «Underreporting Researh Is Scientific Misconduct». JAMA. 9 de Março de 1990; 263(10): 1405-1408.

[2] Sterling T. «Publication decisions and their possible effects on inferences drawn from tests of significance — or vice versa». Am Stat Assoc J 1959; 54: 30-4.

[3] Sterling TD, Rosenbaum WL, Weinkman JJ. «Publication decisions revisited — the effect of the outcome of statistical tests on the decision to publish and vice-versa». Am Stat 1995; 49: 108-12.

[4] Bacon F (1645). «Franc Baconis de Verulamio/Summi Angliae Can-cellarii/Novum organum scientiarum». [Francis Bacon of St. Albans Lord Chancellor of England. A «New Instrument» for the sciences] Ludg. Bat: apud Adrianum Wiingaerde, et Franciscum Moiardum. Aforismo XLVI (p.45-46).

[5] Fowler T (1786). «Medical reports of the effects of arsenic in the cure of agues, remitting feveres and periodic headaches». Londres: J Johnson, p.105-107.

[6] Hemminki E. «Study of information submitted by drug companies to licensing authorities». BrMedJ. 22 de Março de 1980; 280(6217): 833-6.

[7] Lee K, Bacchetti P, Sim I. «Publication of clinical trials supporting successful new drug applications: a literature analysis». PLoSMed 2008; 5(9): el91.

[8] Melander H, Ahlqvist-Rastad J, Meijer G, Beermann B. «Evidence b(i)ased medicine — selective reporting from studies sponsored by pharmaceutical industry: review of studies in new drug applications». BMJ2003; 326: 1171-3.

[9] Rising K, Bacchetti P, Bero L. «Reporting Bias in Drug Trials Submitted to the Food and Drug Administration: Review of Publication and Presentation». PLoS Med. 25 de Novembro de 2008; 5(11): e217.

[10] Scherer RW, Langenberg P, von Elm E. «Full publication of results initially presented in abstracts». Cochrane Database Syst Rev 2007; 2: MR000005.

[11] Song F, Parekh S, Hooper L, Loke YK, Ryder J, Sutton AJ, et al. «Dissemination and publication of research findings: an updated review of related biases». Health Teehnol Assess. Fevereiro de 2010; 14(8): iii, ix-xi, 1–193.

[12] Dickersin K. «How important is publication bias? A synthesis of available data». Aids Edue Prev 1997; 9(1 SA): 15-21.

[13] Ioannidis J. «Effect of the statistical significance of results on the time to completion and publication of randomized efficacy trials». JAMA 1998:279: 281-6.

[14] Bardy AH. «Bias in reporting clinical trials». Brit J Clin Pharmaco 1998; 46:147-50.

[15] Dwan K, Altman DG, Amaiz JA, Bloom J, Chan AW, Cronin E, et al. «Systematic review of the empirical evidence of study publication bias and outcome reporting bias». PLoS ONE 2008; 3(8): e3081.

[16] Decullier E, Lhéritier V, Chapuis F. «Fate of biomedical research protocols and publication bias in France: retrospective cohort study». BMJ2005; 331: 19.

Decullier E, CHapuis F. «Impact of funding on biomedical research: a retrospective cohort study». BMC Public Health 2006; 6: 165.

[17] Cronin E, Sheldon T. «Factors influencing the publication of health research». Int J Teehnol Assess 2004; 20: 351-5.

[18] Song F, Parekh S, Hooper L, Loke YK, Ryder J, Sutton AJ, et al. «Dissemination and publication of research findings: an updated review of related biases». Health Teehnol Assess. Fevereiro de 2010; 14(8): iii, ix-xi, 1–193.

Fontes: Livro: «Farmacêuticas da Treta» de Ben Goldacre - Paradigma da Matrix
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